Leituras com café – Analisando livros / O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa

Obs. Há spoilers, claaaaro, pois aqui é uma análise do livro… 🙂

“Dizem que Aslam está a caminho. Talvez até já tenha chegado”. Estas frases, plenas da criatividade mágica de C S Lewis, apontam para a expectativa e a esperança da redenção cristã. Uma afirmação como essa, para os que ainda não tiveram o prazer da leitura do livro O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, necessita de maiores explicações.

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Escrito por C S Lewis, um dos mais importantes pensadores do século XX, O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa é parte integrante da série de livros infanto-juvenis chamada Crônicas de Nárnia.

O livro narra a história de quatro irmãos, Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia, que encontram, no interior de um guarda-roupa, uma passagem para um outro mundo: Nárnia. Nesse mundo, as crianças travam contato com seres mitológicos e animais falantes, e acabam descobrindo que Nárnia vive um inverno perpétuo, escravizado pelo poder da Feiticeira Branca, capaz de transformar seres em estátuas de pedra. Somente a vinda de Aslam, o Rei-Leão, pode transformar esta realidade.

Dessa maneira Lewis escreve uma belíssima história de traição e salvação; de pecado e redenção. Não se trata de um simples conto de fada (muito bem escrito, por sinal), mas de uma narrativa que aponta para uma realidade transcendente. É justamente por esse motivo que O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa possui um sentido teológico que não deve ser menosprezado.

Mas em que, exatamente, uma história como essa se relaciona com o evangelho?

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O tema central da história é a redenção, tanto coletiva quanto individual. Nárnia encontra-se escravizada pela magia da Feiticeira, que mantém todo o mundo sob a frieza sem vida de um inverno perpétuo. Existe, portanto, uma clara referência ao que Paulo afirma sobre a criação quando escreve sua epístola aos romanos: “a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.20-21). Sendo assim, Nárnia e também o nosso mundo gemem e suportam angústias à espera da redenção proporcionada pelo Criador. E quando Aslam chega, a primavera acontece!

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Já a redenção individual cumpre-se na figura de Edmundo, que personifica o ser humano egoísta, perdido e pecador. A sua traição acaba levando Aslam à morte, do mesmo modo que o beijo de Judas levou Cristo à prisão e, por fim, à cruz. Lewis aborda aqui o resultado do pecado: a morte que se cumprirá, a não ser que haja Outro capaz de dar sua própria vida no lugar do pecador. Como diz Paulo, “porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23). Daí a necessidade de redenção. Aliás, esta esperança por Aslam como redentor está presente em todo o livro. A sra Castor, por exemplo, quase não acredita que está vendo diante de seus olhos o cumprimento da profecia sobre os filhos de Adão. “Chegaram finalmente”, diz ela, “Finalmente! E pensar que eu ainda iria viver para ver este dia!”. Percebe-se nesta passagem a mesma expectativa cumprida que ocorre na vida de Simeão e Ana quando vêem a salvação de Israel, ainda bebê, no colo de Maria (Lc 2.25-38).

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O encontro entre o Cristo perdoador e o ser humano pecador é absolutamente pessoal: não existe mais qualquer necessidade de intermediários. Quando Aslam perdoa Edmundo, a ninguém é dado conhecer o teor da conversa entre os dois. Cumpre-se, nesta passagem, o dizer de Paulo de que “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (I Tm 2.5). Além disso, existe uma alusão ao fato de que, em Cristo, “as coisas velhas já passaram e tudo se fez novo” (I Co 5.17). Não há mais acusação para quem está em Cristo: Edmundo não se importa com as acusações de traição proferidas pela Feiticeira; já estava perdoado e tem seus olhos voltados unicamente para seu redentor. O preço de seu resgate não é pago à Feiticeira, mas à própria justiça do Imperador de Além-Mar, que simboliza Deus-Pai. A Lei inscrita na Mesa de Pedra representa a Lei de Moisés, dada por Deus, porém, incapaz de gerar salvação por si só. Portanto, “a Lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé” (Gl 3.24). Esta passagem refere-se ainda ao fato de que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões” (II Co 5.19).

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Esta redenção se cumpre na entrega que Aslam faz de sua própria vida em favor da vida de Edmundo. Voluntariamente, Aslam caminha por sua via dolorosa em direção ao exército da Feiticeira que o aguarda na Mesa de Pedra. Esta passagem aponta para a profecia de Isaías, cumprida em Cristo: “Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca” (Is 53.7); e para os textos do evangelho de João, onde Jesus afirma acerca de si mesmo: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas (…) Por isso o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou.” (Jo 10.11, 17-18).

Tal como Jesus, Aslam está completamente só na hora de sua morte. As crianças que o acompanharam até próximo ao local, não recebem permissão para continuar ao seu lado no restante do caminho. Sua humilhação – a juba cortada, as zombarias, e “aquela horda infernal, que lhe batia, dava pontapés, cuspia-lhe em cima, insultava-o” – encontra paralelo no sofrimento de Cristo nas mãos dos que o crucificaram (Mt 27.27-31).

Do mesmo modo que ocorre nos evangelhos, as primeiras a verem Aslam ressurreto são mulheres: Susana e Lúcia. A Mesa de Pedra quebrada aponta para o fim do domínio da Lei sobre a vida do cristão, bem como para o véu do santuário que se rasgou de alto a baixo quando Jesus morreu na cruz (Mt 27.50-51).

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Se esta Lei foi dada no tempo, a redenção e a cruz são eternas. A magia ainda mais profunda, citada no livro por Aslam, representa o Cordeiro sem defeito e sem mácula que, conhecido antes da fundação do mundo, é manifestado no fim dos tempos por amor ao homem (I Pe 1.19-20). Assim, se pela ofensa de um reinou a morte, “muito mais os que receberam a abundância da graça e o dom da justiça reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo” (Rm 5.17). Onde abundou o pecado, superabundou a graça. Aslam não pode ser domado pela maldade do homem; antes, o redime por completo, alcançando os que estavam presos no castelo da Feiticeira e fazendo-os viver novamente. A redenção do ser humano se completa.

E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”. João 8:32

 

 

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